Segunda-feira, 30 de Setembro de 2013

#5

"Treze", respondeu ela, telegraficamente.

Era tudo o que ele precisava ouvir. Mas quem era ele?

Ele, turns out, não era ninguém. Ela sabia que ele não era ninguém. Mas respondeu mesmo assim. Sentada sob a sombra do umbu, já irrelevante àquela hora da tarde, Aniksa contemplava a beleza do bosque que era os fundos de sua casa. Observava, meio atenta, meio difusa, a estrutura recursiva das pequenas flores amarelas ao seu redor, as abelhas que coletavam o pólen em seu algoritmo metódico e infalível. Era bonito, mas ao mesmo tempo a realização da magnitude, da propositalidade de tudo aquilo deixava-a com calafrios.

Ficou ali por um bom tempo. Aquele que não era ninguém sentou-se ao seu lado. Ela deu-lhe a mão, trocando com ele infinitas cadeias de símbolos não proferidos. Era tudo o que ela precisava ouvir. Era? Era, ela tentava se convencer. Mas não era. Alguma coisa faltava, e ela se iludia de que ignorava o que quer que fosse, por mais que, reprimida sob toda aquela racionalização e esquematização de todas as coisas, lá estivesse agudamente evidente a fonte de sua angústia.

A lua, brilhando palidamente no alto do céu, lhe dizia que era hora de se preocupar com outras coisas.

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publicado por Anarco-Absolutista às 07:00
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Domingo, 15 de Setembro de 2013

Canção fugaz e sem importância

O dinheiro é loquaz e pressupõe a ganância.
O amor é falaz e pressupõe a constância.
A atitude é tenaz e pressupõe a jactância.
A vitória é mordaz e pressupõe a ambulância.

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publicado por Anarco-Absolutista às 23:01
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Quinta-feira, 12 de Setembro de 2013

Da gloriosa e peculiar aparição do homem

"Parece que minhas bochechas vão cair", disse Péricles, enquanto arrumava a mochila. A tarde estava ensolarada e o prenúncio da tempestade era evidente. "Maria! Vem cá me ajudar", disse ele. Maria saiu correndo de dentro da caverna, tomando o bastão e a foice na mão, sem sequer lançar-lhes os olhos. Era primavera. Seus cabelos voavam no vento, exalando o mais rico dos aromas, enquanto ela se dirigia ao ponto em que se encontrava a única árvore visível num raio de muitas léguas, onde Péricles a esperava.

"Acho que já é tarde", disse ela, ao chegar ao ponto de encontro. "Não vejo uma única gaivota por aqui."

"É verdade", respondeu Péricles, "mas nada pode ser feito." Colocou-se em uma postura rebelde e recitou um antigo hino sidartaniano:

"A quinta essência nunca vi
Nem tenho mais que vê-la;
Mas nunca morre o guarani
Sentado sobre a estrela."

A noite começava a pôr-se manifesta, e os lobos cantarolavam melodias de perdição. A referida estrela já se fazia visível no firmamento, tomando proporções assombrosas e formas inambíguas: era o severo lume interplanar. Descendia ele do céu, e sobre ele, tal como prenunciado, estava não outro senão o guarani, Ubirajara, o Místico. O temor e o entusiasmo tomaram o homem e a mulher, que observavam atentamente a translocação do objeto voador. "Subide, comparsas!", exclamou o passageiro, e de chofre estavam a seu pé os dois terráqueos. "A noite é longa, mas o dia é mais ainda."

E assim partiram, sem qualquer alarde.

publicado por Anarco-Absolutista às 23:23
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Sexta-feira, 12 de Julho de 2013

Uma primeira observação

Ao que tudo indica, este blog existe.

Ou não?

publicado por Anarco-Absolutista às 02:27
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Segunda-feira, 6 de Agosto de 2007

A Revelação de Míster-Quatro-Ferúleo

[Esta história foi escrita a 6 de agosto de 2007 e movida para cá em 15 de setembro de 2013. Está inacabada, e possivelmente assim permanecerá. Porém, ela serve de contexto para ambientar outras histórias que possam vir a ser publicadas por aqui (com o pequeno detalhe de que de lá para cá eu resolvi chamar de Sidartânia o país, e não a capital).]

Acorde inicial

Houve um tempo em que os Mestres do Kung-fu dominavam a região de Katrasena. Nessa época a Svaitzirlândia era um lugar pacífico, cheio de barras de chocolate e rosquinhas de pimenta e gengibre. As pessoas viviam felizes em seus baldes de madeira, e os comerciantes disso se regozijavam.

Um dia o sol nasceu. Quando Jeremias, o Velho, olhou aquela espetacular massa luminosa no céu de Sidartânia, capital da Svaitzirlândia, teve uma iluminação. Obviamente, qualquer um que se puser sob o sol receberá uma iluminação; mas Jeremias não teve uma iluminação qualquer. Ele viu o Grande Espírito de Meng-guo Manifesto, em toda a sua glória. E isto o deixou decepcionado.

Ao chegar em casa, Jeremias encontrou alguns objetos peculiares: uma abóbora tão grande que podia ser vista a olho nu; uma folha contendo um sistema de equações lineares de ordem três; uma garrafa de vinho totalmente deteriorada pela ação do vento; e um patinete. Neste momento, Jeremias ajoelhou-se e exclamou: “Por Fenelakatomesetra! Isto é muito fabuloso!”.

Foi então que surgiu à sua frente a imagem de uma mulher lindíssima, etérea, que lhe disse: “Sim, sim, eu lhes digo... Esta é a verdadeira realização dos princípios do Yin e do Yang. Tu, meu caro, passaste na Sagrada Prova dos Nove Mestres, e assim foste escolhido para a divina missão de instruir o povo terrestre na Suprema Arte da Criação de Forímbolas, para trazer a liberdade, a igualdade e a fraternidade a este mundo, permitindo a realização das forças vesperiais, sem perda de performance.”

Da sublevação mística

Jeremias, o Velho, filho de Anameksa Telemenasta e Meketro Sumetraloksa, Mestre Supremo na Arte da Criação de Forímbolas, foi assim informado de sua missão utópico-mística em seu honorável mundo. Fez uma reverência longitudinal à divindade que à sua frente se encontrava e partiu com um aerólito (diga-se de passagem, o Supremo Aerólito, que será mencionado mais adiante) em suas riquíssimas mãos em direção a Menetromikso, o Louco, Alto Mestre do Kung-fu, iniciado na Quinta Arte Mecano-Austral, protetor das Árvores Estelares, responsável pelos Assuntos Sábios da cidade de Sidartânia.

Após meia hora de caminhada pelas velhas estradas que levavam à Suprema Cúpula Draconiana, Jeremias entrou no referido local, colocou-se em uma posição heróica, e exclamou:

“Ah, Menetromikso, grande sábio das coisas eternas e das mutações, mestre na arte de presenciar elementos, subversor dos velhos paradigmas, realizador dos Eternos Momeraths, tu, que és capaz de manejar os ventos e as estações, e ainda assim não o faz, querede saber dos admiráveis e impressionantes acontecimentos que manifestaram-se ao meu olhar assombrado.”

Menetromikso, o Louco, saiu de o que aparentou ser uma diminuta caixa de temperos. “É uma de suas mais populares características”, pensou Jeremias, enquanto o Mestre do Kung-fu se aproximava.

Menetromikso parou diante de Jeremias, olhou em seus olhos e exclamou: “Ah! Espíritos de Forímbolas... quem tu pensas que és? Não sabes mesmo o que acontece entre a vida e a morte? Um reles potrevar... E acreditas ter o poder de exclamar pílulas... E não quaisquer pílulas... pílulas pequenas! Hmm... Deixa-me ver isto.” E demonstrou querer tocar no aerólito (o Supremo Aerólito, que será explicado mais adiante) que Jeremias portava em suas riquíssimas mãos. Jeremias prontamente entregou-lhe o aerólito (o Supremo Aer... bem, já sabes...) e sentiu como se um Dharma atravessasse seus vinte e quatro diafragmas.

Quando Menetromikso tocou o referido objeto, sentiu um extremo choque térmico, em toda a sua glória, e gritou: “Pelo amor de Setra! Quem é que fez isso?”. Mas Jeremias não estava mais em sua normalidade; havia entrado em um estado de transe, e dizia as velhas palavras de compaixão:

“Ja kirila mekenematsa hu melá...
Patra molomerematsa kirila nometrasá...
Kelemonopitsematsahameritsiamá...
Eteremelakenitsa putermelatsá...”

Foi então que Menetromikso entendeu que, realmente, Jeremias havia recebido dos Grandes Espíritos a suprema missão de instruir a humanidade na Arte da Criação de Forímbolas, trazendo assim a liberdade, a igualdade e a fraternidade a este mundo, permitindo a realização das forças vesperiais, sem perda de performance. Menetromikso refletiu sobre aquilo e decidiu.

O Supremo Aerólito

O aerólito que Jeremias portou ao Grande Mestre do Kung-fu Menetromikso, o Louco, não era um aerólito qualquer, desses que podemos comprar em uma banca de jornais. O referido aerólito trata-se do Supremo Aerólito, protetor das Vacas Celestes, divisor das Águas de Helena, a Soberba, fonte de tudo o que há de mais refrescante. Diz-se que este aerólito foi-nos dado por Fúlster, o Invejável, antes de tornar-se um Alto Espírito Charlatão, no intuito de rejuvenecer toda e qualquer donzela que não se pusesse em lucernas de ouro.

A questão é: como este aerólito (o Supremo Aerólito) foi chegar às mãos de Jeremias, o Iluminado? Bem, isto não cabe a nós discutir. É errado, sabes, intrometer-se na vida particular das pessoas.

A tenda e a fístula de Ketalmopano

Depois de ter compreendido tudo aquilo, Menetromikso voou mentalmente sobre a água e repousou. Isto o deixou com muito sono; por isso, resolveu pegar sua guitarra e manejá-la para produzir a perfeita secessão elementar. Jeremias entendeu muito bem o significado daquilo e foi para sua casa meditar e beber. Iniciaria uma jornada pela iluminação do ser humano, e isto não é uma coisa que se faz todos os dias. Depois de algum tempo, qualquer um perde a prática.

O que nenhum dos dois esperava era a presença de Ketalmopano em pessoa nas redondezas da Suprema Cúpula Draconiana. Ketalmopano, o Póstumo, ria-se em fúria ao ouvir o cântico proferido por Jeremias, enquanto bebia sua famosa infusão de gel em pó. Ele pertencia ao Clã de Minesota, e assim não podia permitir que Jeremias intoxicasse o povo com suas idéias merovíngias. O Clã de Minesota não era muito favorável à liberdade, à igualdade e à fraternidade. E foi assim que Ketalmopano, o Póstumo, filho de Kutrepso Mikenalapa e Maralta Veranoksa, Mantenedor das Cinco Seitas, Blasfemador de Forímbolas, Metrificador das Estrelas e dos Mundos, declarou morte a Jeremias e sua raposa (a Suprema Raposa, que será dita mais tarde).

publicado por Anarco-Absolutista às 00:00
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